terça-feira, 18 de maio de 2010

PSICANÁLISE





Uma das principais correntes na história da psicologia é a teoria psicanalítica de Sigmund Freud. Este sistema teórico é um modelo do desenvolvimento da personalidade, uma filosofia da natureza humana e um método de psicoterapia. Historicamente, a psicanálise constitui a primeira das três maiores escolas de psicologia, sendo o behaviorismo a segunda, e a terceira, ou “terceira força”, a psicologia humanista existencial. É importante reconhecer que Freud foi o criador de uma abordagem psicodinâmica à psicologia, por lhe ter proporcionado um novo modo de olhar e descobrir novos horizontes. Freud estimulou uma grande soma de controvérsias, de atividade exploratória e de pesquisa, e lançou os fundamentos sobre os quais se fixam muitos sistemas posteriores.


De um ponto de vista histórico, as maiores contribuições da teoria psicanalítica são as seguintes:

(1) A vida mental do indivíduo pode ser compreendida e é possível aplicar-se insights sobre a natureza humana para aliviar certas formas de sofrimento.

(2) O comportamento humano é quase sempre governado por fatores inconscientes.

(3) O desenvolvimento durante a primeira infância tem um efeito profundo sobre o funcionamento da pessoa adulta.

(4) Esta teoria produziu um sistema de referência significativo para a compreensão dos meios através dos quais um indivíduo tenta enfrentar a ansiedade, postulando mecanismos que servem, ao mesmo indivíduo, para evitar vir a ser dominado pela ansiedade.

(5) A abordagem psicanalítica oferece recursos de decifração do inconsciente por meio da análise dos sonhos, resistências e transferências.


Esse artigo bibliográfico, objetiva fornecer ao estudioso da psicopedagogia, fundamentos teóricos básicos sobre a Psicanálise. Para isso recorreremos ao texto de Gerald Corey(1983;p.25-33), Editado pela Campus, cidade do Rio de Janeiro, cujo título é “Técnicas de Aconselhamento e Psicoterapia”. Também aqui recorreremos à nossa vivência de ser psicólogo, pedagogo e educador especializado e especialista em psicopedagogia, e outros referenciais teórico, além de Corey, nossa base.


2.CONCEITOS-CHAVES NA PSICANÁLISE

2.1. ESTRUTURA DA PERSONALIDADE

De acordo com a visão psicanalítica, a estrutura da personalidade consiste em três sistemas: o id/isso, o ego/eu e o superego/supereu. Trata-se de nomes para processos psicológicos, não devendo ser imaginados como termos-vida que, separadamente, agenciem a personalidade: o processo desses três sistemas é dinâmico, complexo e muito rico. O id/isso é o componente biológico (onde se localiza o incosciente: outra cena), o ego/eu é o componente psicológico (a consciência ou o que dela resta) e o superego/supereu, o componente social (moralidade).






O id é o sistema original da personalidade. Ao nascer, a pessoa reduz-se ao id, puro desejo instintivo. Este é a fonte primária da energia psíquica e a sede dos instintos. Carece de organização, é cego, exigente e insistente. O id não pode tolerar tensão, funcionando no sentido de liberar as tensões imediatamente e voltar a uma condição homeostática (de equilíbrio interno). Regido pelo princípio do prazer, cujo objetivo é reduzir a tensão, evitar a dor e obter prazer, o id é ilógico, amoral e impulsionado por uma deliberação: satisfazer necessidades instintivas em conformidade com o princípio do prazer. O id nunca sofre maturação, permanecendo, de modo metafórico como como uma criança mimada da personalidade do ser: não pensa; apenas deseja ou age. O id é inconsciente.


O Ego (eu)

O ego entra em contato com o mundo exterior, a realidade. O ego é o executivo da personalidade, aquele que comanda, controla e regulamenta. Metafóricamente funciona como um “guarda de trânsito” para o id, o superego e o mundo exterior: sua tarefa principal é a mediação entre os instintos e o meio circundante. O ego controla a consciência e facilita o exercício a censura. Regido pelo princípio de realidade, desenvolve o pensamento lógico e realista, e formula planos de ação para satisfazer as necessidades. Qual a relação entre o ego e o id? O primeiro é a sede da inteligência e da racionalidade, verificando e controlando os impulsos cegos do id. Enquanto o id conhece apenas a realidade subjetiva, o ego distingue entre as imagens mentais e as coisas no mundo exterior. Entretanto, o EU não é SENHOR de sua própria CASA, pois a estrutura, isto é, o que segura a casa é o inconsciente. Mas , se o , é “terra onde ninguém pisa”, como ele fica? Desprovido da certeza, e temeroso daquilo que não sente, mas sabe que uma represa prestes a estourar. Assim não se pode falar do exercício de ser senhor de nada.

O superego (supereu)


O superego é o setor moral, ou a instância jurídica da personalidade. Constitui o código moral de uma pessoa, preocupando-se centralmente com o fato de uma ação ser boa ou má, certa ou errada. Representa o ideal, mais do que o real, e luta não pelo prazer, mas pela perfeição. Representa os valores e ideais tradicionais da sociedade, da cultura sob a forma em que são transmitidos da sociedade pelos pais aos filhos. Funciona no sentido de inibir os impulsos do id, de persuadir o ego a substituir os objetivos realistas pelos morais e lutar pela perfeição. Assim, o superego, enquanto internalização dos padrões dos pais e da sociedade, está relacionado com recompensas e punições psicológicas. As recompensas são os sentimentos de orgulho e auto-estima; as punições são sentimentos de culpa e de inferioridade.

O delinqüente juvenil tem excesso de ID/ISSO? Falta a ele a moralidade do SUPEREGO/SUPEREU?

O delinqüente juvenil teria tanto SUPEREGO, que não suportando tamanha culpa, para aliviar-se, cometeria delitos, para assim justificar tanta culpabilidade introjetada. Essa, pelo menos, é uma das hipóteses levantadas pelos psicanalistas, a partir de suas práticas clínicas.

2.2. VISÃO DA NATUREZA HUMANA

A visão freudiana a respeito da natureza humana é essencialmente pessimista, determinista, mecanicista e reducionista. Segundo Freud, o homem é determinado por forças irracionais, motivações inconscientes, necessidades e pulsões biológicas e instintivas, e pôr eventos psicossexuais que se dão durante os primeiros cinco anos de vida.

Os homens são vistos nos termos de sistemas de energia. Conforme o ponto de vista freudiano ortodoxo, a dinâmica da personalidade consiste nos modos de distribuição da energia psíquica entre id, ego e superego. Já que a energia é limitada, um sistema ganha o controle sobre a energia disponível à custa dos outros dois sistemas. O comportamento é determinado por essa energia psíquica.

Freud dava também ênfase ao papel dos instintos. Todos os instintos são inatos e biológicos. Freud destacava os instintos sexuais e agressivos. Via todo o comportamento humano como determinado pelo desejo de obter prazer e evitar a dor. O homem possui tanto instintos de vida quanto instintos de morte; a vida não é mais do que uma via indireta para a morte.


2.3. CONSCIÊNCIA E INCONSCIÊNCIA

Talvez a maior contribuição de Freud sejam os conceitos de inconsciente e de níveis de consciência, que constituem as chaves para a compreensão do comportamento e dos problemas da personalidade. O inconsciente não pode ser estudado diretamente; é inferido do comportamento. Entre as evidências clínicas para postular-se o conceito de inconsciente estão as seguintes:

(1) os sonhos, que são representações simbólicas de necessidades, desejos e conflitos inconscientes;

(2) lapsos de língua e o esquecimento, por exemplo, de um nome familiar. Nesses casos a pessoa troca nomes de alguém, faz um gesto psicomotor antagônico ao que desejava etc., e esses “atos falhos””ou “lapsos” tem significados que a pessoa não sabe, e nem sente. E mesmo que se diga a ela o significado, ela resistirá, e não irá escutar. Por isso dissemos que interpretar assim-assim é “psicanálise selvagem”, pois a interpretação surge ao longo do tratamento psicanalítico, e é referendado totalmente no estudo minucioso do caso;

(3) a sugestão pós-hipnótica;

(4) material derivado por meio de técnicas de associação livre;

(5) material derivado pela aplicação de técnicas projetivas (testes psicológicos de personalidade que obedecem uma “lei”: diante de estímulos confusos e ambíguos o cliente “projeta”, “joga para fora” etc. muito de si-mesmo, do seu mais profundo ser, do seu inconsciente etc. Assim, o cliente fala, por exemplo o que vê nas lâminas de Rorschach, Zulliger, TAT etc., e o que ele vê, mas não sabe e nem sente, é que vê a si-mesmo. Se o cliente é concida a desenhar e inventar histórias como o THP, o Machover, o Teste Projetivo de Avaliação do Auto-Conceito de Pinel (1989) etc. , o cliente desenha a si-mesmo etc.)


A consciência, para Freud, é uma fina camada de mente como um todo. À semelhança da porção maior de um iceberg, que jaz abaixo da superfície da água, a maior parte da mente existe sob a superfície da consciência. O inconsciente, residindo fora da consciência, armazena todas as experiências, recordações e material reprimido. Necessidades e motivações inacessíveis - isto é, fora da consciência – estão também fora da esfera de controle. Freud acreditava que a maior área de funcionamento psíquico existe no domínio fora-da-consciência. Em função disso, a intenção da terapia psicanalítica é tornar consciente os motivos inconscientes, pois somente quando alguém se torna consciente de suas motivações será capaz de escolha. É da maior importância compreender o papel do inconsciente para aprender a essência do modelo psicanalítico do comportamento. Embora fora da possibilidade de consciência, o inconsciente influencia o comportamento. Os processos inconscientes são as raízes de todas as formas de sintomas e comportamentos neuróticos. Dentro desta perspectiva, a “cura” está baseada no desvelamento do sentido dos sintomas, das causas do comportamento e do material reprimido que interfere no funcionamento saudável.


2.4. ANSIEDADE


A apreensão do conceito de ansiedade é também essencial para compreender-se a visão psicanalítica da natureza humana. A ansiedade neurótica é um estado de tensão que nos motiva a fazer algo. Sua função é alertar para o perigo iminente – isto é, avisar ao ego que, caso não sejam tomadas medidas apropriadas, o perigo pode crescer a ponto de ele ser derrubado. Quando o ego não consegue controlar a ansiedade usando de métodos racionais e diretos, recorre então a outros, não realistas – a saber, ao tipo de comportamento orientado para a defesa do ego (ver a seguir).

Há três espécies de ansiedade: com base na realidade, neurótica e moral. A ansiedade com base na realidade é o medo do perigo proveniente do mundo exterior, sendo o nível de ansiedade proporcional ao grau de ameaça real. A ansiedade é o medo de que os instintos escapem ao controle e levem a pessoa a realizar algo que possa merecer punição. A ansiedade moral é o medo da própria consciência. Um indivíduo cuja consciência seja bem desenvolvida* tende a sentir-se culpado, quando faz algo contrário ao seu código moral.

2.5.. MECANISMOS DE DEFESA DO EGO

Tendo em vista que os orientadores educacionais, psicólogos, profissionais da psicopedagogia etc. trabalham com resistências e defesas de seus clientes, torna-se essencial uma compreensão da natureza e funcionamento das defesas comuns do ego ou eu. Os mecanismos de defesa do ego auxiliam o indivíduo a enfrentar a ansiedade e a defender o ego quando atacado. Não são necessariamente patológicos e podem ter valor adaptativo, se não chegarem a se tornar um estilo de vida tendente a evitar o confronto com a realidade. As defesas usadas por um indivíduo dependem do seu nível de desenvolvimento e do grau de ansiedade. Os mecanismos de defesa apresentam duas características em comum: ou negam, ou distorcem a realidade, e operam em nível inconsciente. A teoria de Freud é um modelo de redução de tensão, ou um sistema homeostático.


Negação: defender-se da ansiedade “fechando os olhos” à existência da realidade ameaçadora. A pessoa recusa-se a aceitar como fato algum aspecto da realidade que provoca ansiedade. A ansiedade em relação à morte da pessoa amada manifesta-se, muitas vezes, pela negação do fato da morte. Em situações trágicas, tais como a guerra e outros desastres, as pessoas tendem a ficar cegas diante de realidades cuja aceitação seria dolorosa demais.

Projeção: atribuir a outra pessoa aqueles traços que são inaceitáveis para o próprio ego. O indivíduo vê nos outros as coisas que lhe desagradam e que não pode aceitar em si mesmo. Assim, pode-se condenar os outros por seus “procedimentos pecaminosos” e negar que se possua tais impulsos para o mal. Para evitar a dor decorrente do reconhecimento, em si mesmo, de tendências julgadas imorais, a pessoa divorcia-se de tal realidade.

Fixação: ficar “preso” a um dos estágios primitivos do desenvolvimento, porque dar o próximo passo envolveria a expectativa de ansiedade. A criança superdependente exemplifica a defesa por fixação; a ansiedade impede a criança de aprender a tornar-se independente.


Racionalização: munir-se de “boas” razões para justificar o ego ferido; auto-engano, de forma a que a realidade de algum desapontamento não seja tão penosa. Assim, quando as pessoas não conseguem as posições que pretendiam em seu trabalho, muitas vezes descobrem as mais variadas razões para se sentirem realmente contentes por não terem alcançado aqueles postos. Ou, ainda, um rapaz, sendo abandonado pela namorada, talvez acalme seu ego atingido persuadindo-se de que ela não valia tanto, afinal, e de que estava já a ponto de descartar-se dela.








Sublimação: usar formas superiores e mais socialmente aceitáveis, para dar vazão aos impulsos básicos. Por exemplo, os impulsos agressivos podem ser canalizados para esportes competitivos, objeto de aprovação social, de modo que a pessoa encontre um meio de expressar sentimentos agressivos e, como benefício adicional, seja freqüentemente recompensada pelo sucesso alcançado nas competições.







Deslocamento: dirigir a energia para outro objeto ou pessoa, quando o objeto ou pessoa original se encontra fora do alcance. O jovem que, cheio de ressentimento, gostaria de atacar seus pais, atinge um alvo mais seguro: sua irmã menor (ou o gato, se ela não estiver perto).

Repressão: esquecer conteúdos que são traumáticos ou ansiógenos; jogar a realidade inaceitável no inconsciente, ou nunca tornar consciente o material conflitante. A repressão, um dos conceitos freudianos mais importantes, é a base para muitas outras defesas do ego e para perturbações neuróticas.

Formação reativa: comportar-se de modo diametralmente oposto aos desejos inconscientes; quando sentimentos profundos são ameaçadores, o indivíduo usa a cobertura do comportamento oposto para negar esses sentimentos. Por exemplo, devido à culpa, a mãe que sente estar rejeitando seu filho pode caminhar para o comportamento oposto da superproteção e do “amor em excesso”. Pessoas que são por demais simpáticas e doces podem estar escondendo hostilidade reprimida e sentimentos negativos.


3. DESENVOLVIMENTO HUMANO E SUA PERSONALIDADE

3.1. IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO PRIMITIVO

Uma contribuição significativa do modelo psicanalítico é o delineamento dos estágios do desenvolvimento psicossocial e psicossexual da pessoa, desde o nascimento até a idade adulta. Isto proporciona, ao orientador, os instrumentos conceituais para compreender tendências ocorrentes no desenvolvimento, padrões comportamentais típicos esperados nos vários estágios do crescimento, o funcionamento normal e anormal em termos pessoais e sociais, necessidades críticas e sua satisfação ou frustração, origens do desenvolvimento defeituoso da personalidade, conducente a problemas posteriores de ajustamento, e usos sadios/não-sadios dos mecanismos de defesa do ego.

Em minha opinião, uma compreensão da visão psicanalítica sobre o desenvolvimento é indispensável, caso o orientador pretenda trabalhar em profundidade com seus clientes. Segundo minha experiência, os problemas mais típicos trazidos pelas pessoas, para o aconselhamento, individual ou de grupo, são: (1) a incapacidade de confiar em si mesmo e nos outros, o medo de amar e de estabelecer relações íntimas, a diminuição da auto-estima; (2) a incapacidade de reconhecer e expressar sentimentos de hostilidade, ressentimento, raiva e ódio, a negação do próprio poder como pessoa e a falta de sentimentos de autonomia; (3) a incapacidade de aceitar plenamente a própria sexualidade e os sentimentos sexuais, dificuldade de aceitar-se como homem ou mulher e medo da sexualidade. De acordo com a visão psicanalítica freudiana, estas três áreas do desenvolvimento pessoal e social (amar e confiar, lidar com sentimentos negativos e desenvolvimento de uma aceitação positiva da sexualidade) são todas fundadas nos cinco primeiros anos de vida. Este período do desenvolvimento constitui as fundações sobre as quais é construído o desenvolvimento posterior da personalidade.

3.2. O PRIMEIRO ANO DE VIDA: A FASE ORAL

Freud postulou a teoria da sexualidade infantil. O fracasso da sociedade em reconhecer, até então, os fenômenos da sexualidade infantil pode ser explicado por tabus culturais e pela repressão feita, por todo indivíduo, sobre as experiências da infância e da meninice, nesta área.

Do nascimento ao final do primeiro ano, o bebê experimenta a fase oral. Sugar o seio materno satisfaz a necessidade de alimentação e de prazer. Sendo a boca e os lábios zonas erógenas sensíveis durante este período, o bebê obtém prazer erótico ao mamar.

A voracidade e a possessividade podem desenvolver-se como resultantes de não se conseguir alimento ou amor suficiente, durante os primeiros anos de vida. As coisas materiais que a criança busca adquirir torna-se substitutivos para o que ela realmente quer – ou seja, alimento e amor vindos da mãe. Problemas de personalidade posteriores, procedentes da fase oral, representam o desenvolvimento de uma visão do mundo baseada em desconfiança, medo de aproximar-se dos outros, rejeição do afeto, medo de amar e confiar, rebaixamento da auto-estima, isolamento e fuga, incapacidade de estabelecer e manter relações intensas.

O principal padrão de comportamento esperado na fase é a aquisição do sentido de confiança – confiança nos outros, no mundo e em si mesmo. O amor é a melhor proteção contra o medo, a insegurança e o sentimento de inadequação; as crianças que são amadas pelos outros apresentam pouca dificuldade de se aceitarem a si mesmas. Caso se sintam indesejadas, inaceitas e não amadas, torna-se, então, difícil a auto-aceitação. As crianças rejeitadas aprendem a desconfiar do mundo; vêem-no como um lugar ameaçador. O efeito da rejeição infantil é a tendência, na meninice, a ser medroso, inseguro, necessitado de atenção, ciumento, agressivo, hostil e solitário.

3.3.. DO PRIMEIRO AO TERCEIRO ANO: A FASE ANAL

Assim como na fase oral é necessário que a pessoa tenha a vivência de uma dependência sadia, confiança no mundo e aceitação do amor, também a fase anal é outro marco no desenvolvimento individual. As tarefas a serem dominadas durante este estágio são a aprendizagem da independência, do poder pessoal e da autonomia, assim como aprender a reconhecer e lidar com os sentimentos negativos.

Começando no segundo e estendendo-se ao terceiro ano, a zona anal passa a ter uma grande significação para a formação da personalidade. Neste período, as crianças deparam continuamente com exigência dos pais, experimentam frustrações ao manipularem objetos e explorarem seu ambiente, e são exigidas a terem controle sobre seus esfíncteres. Iniciando-se o treinamento da higiene no decorrer do segundo ano, passam as crianças por uma primeira experiência de disciplina. O método adotado nesse treinamento e os sentimentos, atitudes e reações dos pais em relação à criança têm efeitos de longo alcance sobre a formação de traços de personalidade. Muitas das atitudes que as crianças aprendem acerca das funções de seu próprio corpo são resultados diretos das atitudes de seus pais. Problemas posteriores, tais como a compulsão, tem raízes na maneira dos pais criarem seus filhos durante esta fase.

No período anal do desenvolvimento, a criança certamente sentirá os chamados sentimentos negativos, tais como a hostilidade, a destrutividade, o ressentimento, a raiva, o ódio etc. É importante para as crianças aprenderem que estes sentimentos são aceitáveis. Muitos clientes em terapia ainda não aprenderam a aceitar seu ressentimento e ódio em relação àqueles que amam. Reprimiram tais sentimentos, quando crianças, uma vez que lhes ensinaram, direta ou indiretamente, que os mesmos eram ruins e que a aceitação dos pais seria retirada se expressassem algo dessa natureza. À medida que o processo de repudiar sentimentos começa, inicia-se igualmente a incapacidade da pessoa para aceitar muitos dos seus sentimentos reais.

É ainda importante para a criança, neste estágio, a aquisição do sentido do seu próprio poder, de sua independência e autonomia. Se os pais fazem coisas demais por seus filhos, realmente lhes ensinam que são incapazes de agirem por conta própria. A mensagem transmitida é: “olha, deixe-me fazer isso e aquilo para você, porque você é fraco demais e incompetente para fazer essas coisas sozinho”. Nesse momento, as crianças precisam experimentar, cometer erros, sentir que ainda estão bem apesar dos erros e reconhecer um pouco de seu poder como indivíduos separados e distintos. Muitos clientes estão sendo atendidos justamente porque perderam contato com sua capacidade para o poder, estando em luta por uma definição de quem são e do que são capazes de fazer.


3.4.. DO TERCEIRO AO QUINTO ANO: A FASE FÁLICA


Vimos que, entre um e três anos, a criança abandona a posição infantil e caminha ativamente no sentido de inscrever-se num lugar dentro do mundo. É um período em que se desenvolvem rapidamente as capacidades para andar, falar, pensar e controlar os esfíncteres. Enquanto começam a se desenvolver capacidades motoras e perceptuais cada vez maiores, o mesmo se dá quanto às habilidades interpessoais. Progredindo a criança de um período onde dominam relações passivo-receptivas até um período de domínio ativo, monta-se o palco para o período de desenvolvimento psicossexual seguinte: a fase fálica. Durante este período, a atividade sexual torna-se mais intensa, estando o foco de atenção nos genitais – o pênis do menino e o clitóris da menina.

A masturbação acompanhada de fantasias sexuais é um complemento normal da primeira infância. No período fálico, sua freqüência aumenta. As crianças tornam-se curiosas a respeito de seus corpos; desejam explorá-los e descobrir as diferenças entre os sexos. A experimentação infantil é comum e, como muitas das atitudes para com a sexualidade têm origem no período fálico, a aceitação da sexualidade e o controle dos impulsos sexuais tornam-se vitais neste momento. Trata-se de um período de desenvolvimento da consciência, um momento de aprendizagem de padrões morais para a criança. O endoutrinamento parental de padrões morais rígidos e não-realísticos constitui-se em perigo crítico, podendo levar ao supercontrole do superego. Se os pais ensinam aos filhos que todos os seus impulsos são maus, estes logo aprendem a sentir-se culpados em relação a seus impulsos naturais, podendo transportar esses sentimentos de culpa para a vida adulta e bloquear-se no que se refere a usufruir da intimidade dos outros. Este tipo de endoutrinamento parental tem como conseqüência uma consciência infantil – isto é, as crianças temem questionar ou pensar por si mesmas e aceitam cegamente o endoutrinamento, sem discussão; seria difícil poder considerá-las moralmente educadas, mas sim simplesmente amedrontadas. Entre outros efeitos, acham-se a rigidez, conflitos graves, culpa, remorso, diminuição da auto-estima e auto-acusação.

Durante esta fase, as crianças precisam aprender a aceitar seus sentimentos sexuais como naturais e desenvolver um respeito sadio por seus corpos. Precisam de modelos adequados para identificação do papel sexual. Nesta época, estão formando atitudes em relação ao prazer físico, ao que é “certo” e “errado”, ao que é “masculino” e “feminino”. Estão alcançando uma perspectiva sobre o modo pelo qual mulheres e homens se relacionam entre si. E decidindo a respeito de como se sentem nos seus papéis de meninos e meninas.

O período fático tem implicações significativas para o terapeuta que trabalha com adultos. Muitos clientes nunca chegaram a uma conclusão quanto a seus sentimentos em relação à sua própria sexualidade. Sentem-se, provavelmente, muito confusos no que se refere à sua identificação sexual e lutam por aceitar seus sentimentos e comportamento sexual. Julgo ser importante que os terapeutas dêem o devido reconhecimento às experiências primitivas quando trabalham com clientes adultos. Não estou sugerindo que aceitem o ponto de vista determinista segundo o qual as pessoas estão condenadas à impotência ou à frigidez, se não tiverem dominado com sucesso as exigências de desenvolvimento próprias à fase fálica. O que vejo como importante, porém, é a tomada de consciência, pelos clientes, acerca de suas experiências infantis nessa área, talvez até o revivê-las e reexperimentá-las em fantasia. Ao reviver acontecimentos e sentir de novo muitos dos sentimentos enterrados, tornam-se cada vez mais conscientes de que são capazes de inventar novos desenlaces para os dramas vivenciados quando eram crianças. Assim, passam a conceber que, embora suas atitudes e seu comportamento atuais sejam certamente modelados pelo passado, não estão fadados a permanecer como vítimas desse tempo.

4. Conclusão


A psicanálise marca muito a sentir-pensar-agir psicopedagogia, prevalecendo entre os assim profissionais da psicopedagogia conceitos como “inconsciente” , transferência (amor, ódio ou desprezo que o cliente transfere do seu núcleo – lar para o setting/espaço de atendimento psicopedagógico; sempre haverá transferência e o educador deverá saber trabalhar esse importante aspecto do ser de cuidado no ofício pedagogo interessado em psicopedagogia) e a contratransferência (amor, ódio ou desprezo que o profissional pode manter, nutrir ou jogar contra o paciente, “caindo nos jogos de ser do cliente/orientando/aluno; idealmente o educador deve fazer um assépcia para não cair nesses jogos) e desejo (o desejo aqui, pode, didaticamente correspoder à motivação, algo interno que impulsiona o ser a gostar ou não de algo, alguém... Entretanto esse desejo deve ser “lido” dentro da psicanálise).

Entretanto a psicopedagogia recebe muitas influências, como a linguística; a neuropsicologia; a pedagogia; a psicologia social e sócio-histórica brasileira e internacional; psicologia do aconselhamento; psicoterapia; psicologia genética de Piaget e seguidores; psicologia marxista de Vygotsky; a pedagogia de Paulo Freire e seguidores; técnicas de mudanças comportamentais de Skinner e seguidores, sem necessariamente utilizar-se do conceito filosófico de homem descrito pelo Behaviorismo (o homem é uma tabula rasa, sem história, sem nada... Nele inscrevemos o que quisermos, basta planejar, executar e avaliar programas de modificação comportamental); a psicologia humanista de Carl Ransom Rogers e seguidores; a psicologia existencial de Frankl, Sartre, Binswanger e Boss; a filosofia clínica e psicologia do cuidado (de raiz existencial) descritos por Leonardo Boff; a psicanálise marxista e outros, etc.